Rito de passagem,
corte e cicatriz
Por Cássia Navas*, convidada do CRITICATIVIDADE
Os ritos de passagem são feitos de três outros ritos, articulados entre si: rito de desagregação, rito de suspensão e rito de composição. O primeiro e o terceiro são como as duas margens de um rio, o segundo pode ser o rio em si, onde artistas também mergulham para vir à tona, na outra margem, modificados.
Todo rito de passagem pressupõe então o risco, em sentido metafórico e real: alguns meninos de tribos do Brasil riscam a pele, cortando-a para que, saradas as feridas, possam exibir suas cicatrizes como código – na carne impresso- duma nova etapa vital. Riscam a pele e se arriscam num ritual, sempre repetido, mas sempre novo, como em cada espetáculo de dança, a cada récita.
Assistindo a “Risco”, do Balé da Cidade de São Paulo, obra-prólogo performática de Ismael Ivo+ Sérgio Ferrara+ Luiz Gustavo Petri (mais artistas da cena, artistas-bailarinos e artistas-técnicos da companhia) diante estávamos dum rito de passagem desfolhando peles.
Pele da cidade, riscada de histórias, também por suas “cicatrizes- grafites”. Pele do palco, sendo descascada por riscos da cidade e pele dos bailarinos desfolhando-se em corpos em performático trânsito.
Trânsito que termina em “suspensão no ar”- uma parada no rio, fluxo desta dança - de “aqui-e-agora”- do Balé da Cidade de São Paulo.
Ao final, suspensos estão os bailarinos. Imóveis aguardam que este fluxo desague também sobre a “outra margem” que pulsa em cada teatro- todos os que ali- na plateia- estão/estiveram/estarão frente a uma arte que se compartilha.
Este fluxo: estamos aqui para recebê-lo. E para receber todas as margens-rios-margens- rios que venham a construir.
* Pesquisadora-professora do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena/IA/UNICAMP, é ensaísta, crítica e curadora em dança

