O prazer do devaneio
(‘Supernada EP01’, de Clarice Lima)
Por Henrique Rochelle
“Supernada EP01”, de Clarice Lima é um trabalho de imaginação e imagética intensas. Apresentado como uma performance coreográfica para crianças, e realizada no espaço aberto da Praça Carlos Gomes, a proposta tem uma boa aceitação pelo público, ainda que a quantidade pequena de crianças na programação da Bienal Sesc de Dança dificultasse a consideração das potências especificamente ligadas a esse publico.
Uma apresentação de mais convidados do que plateia geral, no entanto, serviu para demonstrar o interesse da obra, e a sugerir sua abrangência: “Supernada” não passa sem interesse para os adultos, que dele tiram um bom tanto de conteúdos, possivelmente até mais notáveis que os que chegam para as crianças.
A obra se faz sem enredo, sem fábula ou narração, o que é em si uma estratégia um tanto diferente da maioria dos trabalhos para esse público — nos quais costumamos ver uma dificuldade crônica em escapar da “moral da história”, e, ainda mais, em escapar da “história da história”.
Existe uma percepção social da criança como criatura da invenção, e da invenção como um processo de linearização e de descoberta. Mas aqui, todas as descobertas parecem querer fugir da expectativa linear. A referência, explícita pelo programa e perceptível também na identidade visual do trabalho, aponta para o “Menu de Heróis”, de Weyla Carvalho para o Núcleo do Dirceu, do Piauí. Por sua vez, o formato visual se encaixa entre o seriado de animação (sugerido também pelo título que nos dá um EP01 — episódio 1 — para essa proposta) e a linguagem videoclipe (de composição imagética acumulada, e não necessariamente sequencial).
O grupo defende a liberdade interpretativa de sua plateia: eles criam imagens, ações e sequências, mas fogem das amarras entre elas, investindo no nonsense. Assim, vemos sequências de personagens e caracterizações (como um M&M azul, um tubarão, um dragão, uma princesa, uma nota de R$20, um tapete do jogo Twister), que aparecem, desaparecem, e sao substituídas ou acumuladas — por vezes os performers trocam de figurino, por outras vão colocando peças por cima das outras.
Numa estratégia que parece traçar um plano, a obra começa com essas figuras andando pelo espaço e fazendo marcas por ele. Na sequência, as ações investem numa briga quase que inofensiva — pois carregada de brincadeira — criando relacionamentos entre essas figuras.
A proposta nos diz querer abrir o espaço da livre-associação — o público é autônomo para fazer suas leituras e interpretações, criar lógicas e histórias para essas personagens — mas essa realização é complexa, pela quantidade atordoante de estímulos, que favorecem a leitura do aleatório: estamos num universo como o de “Alice no País das Maravilhas”, mas sem Alice, sem país e sem enredo.
Funciona, e bastante bem, com os adultos, porque nos ajuda a nos livrar das amarras de “buscar formas em nuvens”, buscar sentido em imagens. Força um aprendizado e apreciação do ilógico insustentável. O prazer do devaneio impera. Já o quanto a estratégia funciona com crianças é mais difícil de medir, especialmente com uma amostra tão pequena.
Se eles compartilham do prazer do hiper-estímulo, abrem-se questões sobre a disposição ao não sequencial. E se o incentivo for mesmo o de que o olhar se permita criar as associações e as histórias, aí a quantidade de material disponível carrega uma inevitável dificuldade de realização: somos expostos a coisas demais, em direções demais. E a dinâmica muito rapidamente passa do “o que aconteceu com tal personagem” para “onde está / onde foi parar / continua em cena tal personagem?”.
Essa outra organização pode ser um dos pontos fortes da obra, no entanto — desde que ela não seja traída por expectativas por ela própria anunciadas. Sua potência reside no caráter investigativo — não da dança, nem da performance, nem mesmo do teatro, mas do principio literário de narrativa.
Ainda que a dança se influencie muito pela literatura, frequentemente isso se dá enquanto plataforma de apresentação de conteúdos. Aqui, o que acontece é de outra ordem: a discussão trata das possibilidades, dos formatos e das estruturas do gênero literário narrativo. E aí está seu valor e seu poder: a fuga da ordem, o elogio da confusão, o prazer do devaneio.



