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Obra reabilita corpo para renovar olhar sobre contratos sociais 

('aCORdo', da Cia REC)

Por Amanda Queirós

São várias as acepções possíveis para a palavra escolhida por Alice Ripoll para batizar o trabalho apresentado por sua Cia REC na Bienal Sesc de Dança, e é interessante ver como ela explora boa parte delas em uma performance concisa, coesa e eficiente. 

 

A primeira tem a ver com despertar. Encenada em uma sala comum, sem artifícios de iluminação cênica, com a plateia disposta no contorno do espaço, “aCORdo” coloca seus quatro bailarinos diante do público em um momento de sesta - nada mais pertinente quando a atividade acontece logo depois do horário do almoço. 

 

Trajados com uniformes de cores neutras, eles se encostam separadamente em uma parede e silenciam para um cochilo. Fazem, assim, uma ponte com uma cena provavelmente vista a caminho da apresentação, de trabalhadores sentados sob a sombra, em calçadas, para um repouso antes da retomada do serviço.  

 

Pouco a pouco, cada um avança pelo espaço em busca de posições mais confortáveis para a soneca. Ao encontrá-las, eles se permitem uma pausa. É como um tempo para a acomodação daquela configuração, que se estende até outro colega reiniciar a procura.

Nisso, o quarteto acaba se aninhando nos corpos uns dos outros, em um claro estado de relaxamento. Mas alguém sempre escorrega ou desaba dessa configuração, forçando o repetição de todo esse processo. 

 

Com o desenrolar da cena, eles vão se empilhando e alcançam o plano médio até ficarem efetivamente de pé. A calmaria de antes é substituída então por uma onda de movimentos frenéticos. Cada um faz sua dança em ritmo acelerado, e a única conexão aparente entre elas é o fato de remeterem a danças sociais. 

 

Gradativamente, eles sintonizam uns com os outros ao coordenarem um agressivo movimento de oscilação de tronco que os leva de volta à fase na qual estavam amontoados ao chão. Essas formações, no entanto, são retomadas de forma mais complexa, explorando apoios e encaixes que exigem certo cálculo físico, evocando mais um sentido da palavra acordo. Para aquilo funcionar, os intérpretes precisam estabelecer um tipo de pacto entre si, especialmente quando um deles se coloca sempre em posição prostrada, deixando-se manipular pelos demais até ser abandonado, inadvertidamente, no colo dos espectadores.

 

Enquanto tenta descobrir como lidar com essa situação, o público começa a ser pilhado. Relógios, óculos, celulares e bolsas são retirados de suas mãos. Eles são repassados a outras pessoas da plateia, colocados nos bolsos dos artistas ou pendurados no corpo deles. Executada em silêncio, toda a operação é conduzida com uma tranquilidade ímpar e uma passividade ainda maior de quem está tendo seu bem afastado de si. 

 

O terceiro significado para o título da obra está prestes a irromper. “aCORdo” é escrito assim para evidenciar que o que está em jogo nesta performance é a cor do outro. Se de início essa questão poderia soar sutil, ao final ela é sublinhada quando os performers, todos negros ou pardos, recheados com os cacarecos coletados, se viram para a única parede livre do recinto, pernas e braços afastados, e ficam enfileirados, de costas para o público, como em uma revista policial. 

 

Agora são os corpos deles que se oferecem a serem manejados pelos espectadores que desejam reaver suas coisas. Mas ninguém quer exatamente tomar frente nessa ação devido a peso simbólico dela. Alguém tenta tirar um dos bailarinos daquela posição, ele logo a retoma - e aí sabemos que não haverá alternativa: para sair dali vai ser necessário pôr a mão em uma pessoa, naquele momento, forçosamente despersonalizada.  

Obrigar a esse contato direto coloca o público no lugar de uma polícia que, mesmo duramente criticada, segue há décadas com os mesmos métodos de abordagem responsáveis por delimitar qual o lugar de uns e o lugar de outros. A palavra acordo surge mais uma vez enquanto pacto entre um grupo, mas dentro do contexto de contrato social. 

Quais acordos estabelecemos e referendamos mesmo sem nos darmos conta? Até que ponto nossas ações (ou a falta delas) nos tornam coniventes com o que acontece na sociedade?  

 

No contexto das grandes cidades, a revista policial se tornou uma imagem banalizada. Alice e seus intérpretes, por sua vez, forçam o uso do corpo do espectador para lembra-lhe que ali há também outros corpos repletos de subjetividades. Com isso, reabilitam o mal estar provocado por um tipo de violência que não deveria ser naturalizada jamais.

Fotos: Beto Assem / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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